crônica - A REJEIÇÃO PRIMORDIAL E O NASCIMENTO DO PSIQUISMO/SUBJETIVO

 

A REJEIÇÃO PRIMORDIAL E O NASCIMENTO DO PSIQUISMO/SUBJETIVO

Minha hipótese é que na vida intra-uterina todo feto se “sente” num paraíso, afinal, é carregado de um lado para outro como um rei/rainha, alimentado e nutrido continuamente, passando os dias imersos nas “águas” daquele paraíso.  Claro que, em muitos casos, o lado externo deste paraíso é um inferno, o que não deixa de perturbar o sossego do paraíso.

E eis que, um dia, vem a expulsão do paraíso. (seria esta a expulsão do paraíso descrita no Gênesis?)

O trauma primordial ocorre.

 A rejeição, assim sentida por cada um de nós, que “pare” (de parir), o psiquismo humano. Psiquismo que é nossa condição/estrutura emocional (e não mental). Psiquismo que nasce aí, pelo fato de, a partir do parto, precisar dar conta da ambivalência gerada: união-separação, inclusão-rejeição, amparo-desamparo... ou, que sabe, paraíso-inferno. Enfim, cada um com sua vivência psíquica primordial. 

Então, ser subjetivo é parido, pois é ele que vivenciou naquele momento, a expulsão e “sentiu” o ocorrido como “a rejeição”. Em termos psicanalíticos poderia se dizer que o “sujeito” passou a se sentir “objeto” também, ou seja, a estrutura psíquica sujeito-objeto nasceu. Afinal antes, na vida intra-uterina, ele era só sujeito – único, inclusive com o corpo da mãe – e ao ser separado daquele corpo, a unicidade também é cindida, de forma que o sujeito passa a ser também, objeto, graças a traumática e precoce vivência da expulsão/rejeição.

Será que então, não há culpa original, como a religião inventou? 

Claro que essa experiência precoce e traumática de expulsão/rejeição, pode ser  enormemente amenizada – ou agravada - pelas contingências externas e nisso, lamento informar, mas os pais tem toda responsabilidade, ou culpa, ao menos até os 18 anos. Evidente que depois, o sujeito precisa – ou deveria - assumir a responsabilidade pela sua “re”estrutura psíquica, mas, bem sabemos, que a maioria prefere continuar culpando os outros pela própria desorganização psíquico-emocional, ou seja, a rejeição/expulsão primordial se inscreveu tão profundamente, que se apoderou de uma existência inteira. Nem a sexualidade, invocando Freud, conseguirá preencher essa fissura original, ao menos não/nunca completamente. Será que é aí que nascem os neuróticos, psicóticos e/ou perversos? 

 

Tercio Inacio

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