artigo - Psicologia e “Neutralidade”

 



Psicologia e “Neutralidade”
Tercio Inacio Jung




Resumo: A Psicologia não pode se ocupar com todos os problemas sociais/externos que afligem uma pessoa, mas, precisa se ocupar com todos os sintomas psíquicos/internos que afligem aquela pessoa.


Palavras-chave: Psicologia. Inconsciente. Escuta parcial.Vulnerabilidade psíquica.



Introdução

A Psicologia, enquanto campo científico e prático, enfrenta uma crise epistemológica e metodológica, evidenciada pela predominância da “escuta parcial”, que privilegia o consciente, o imediato e o externo, negligenciando a estrutura psíquica maior e mais profunda. Fundada historicamente na Neurologia médica, conforme demonstram autores como Freud (1996/2001) e Jung (1964), a Psicologia contemporânea corre o risco de se reduzir a um conjunto de práticas superficiais de saúde corporal e sociológicas no sentido de se sentir compelida a dar respostas a uma justiça social, desconsiderando em grande medida, seu próprio objeto de estudos enquanto Ciência, qual seja, o psiquismo subjetivo, este que é sempre singular, pessoal e único.

Claro que é importante incorporar perspectivas contemporâneas, que ampliem a compreensão da subjetividade em contextos sociais complexos, como as contribuições da Psicologia Crítica (Almeida, 2018) e da Psicologia Cultural (Vygotsky, 1987). Essas abordagens enriquecem o debate sobre a inter-relação entre indivíduo e sociedade - entre subjetivo e intersubjetivo - evidenciando como fatores culturais e sociais condicionam a experiência psíquica subjetiva.

De forma interdisciplinar, este escrito também dialoga com conceitos da Neuropsicologia contemporânea e da Psicologia Social Crítica, para discutir os limites e potencialidades da “imparcialidade” na acolhida, na escuta, na conexão com a realidade, enfim, na prática da Psicologia. Essa perspectiva integrada, justifica a complexidade do tema e a necessidade de uma prática que vá além de uma “escuta parcial”.



Metodologia

A análise desenvolvida neste trabalho é de natureza qualitativa e crítica, com base em revisão bibliográfica de obras clássicas e contemporâneas da Psicologia, Psicanálise e Psicologia Analítica. Foram examinadas contribuições fundamentais de Sigmund Freud, Carl Gustav Jung, bem como de autores modernos que discutem a articulação entre consciência, inconsciente e prática clínica, como Fonagy et al. (2002) e Safran & Muran (2000).

Além da base teórica, foram considerados casos concretos, que favoreceram a comparação dos efeitos da Psicologia de escuta parcial com intervenções psicanalíticas mais profundas. A seleção dos estudos seguiu critérios de relevância temática, publicação em periódicos qualificados e ênfase na análise de indicadores de transformação subjetiva, como capacidade de simbolização, elaboração psíquica e mudança de padrões de repetição sintomática.

Essa combinação entre análise teórica e dados empíricos permite ampliar o escopo da crítica, fundamentando a argumentação sobre as limitações das práticas psicológicas centradas apenas no consciente, em sintomas e nos aspectos sociais externos e reforçando a necessidade de intervenções que acessem as vivências e experiências psíquicas subjetivas, ou seja, singulares e mais profundas.



“Imparcialidade”


No começo do curso Psicologia, fiquei desapontado com o foco excessivo no mental humano. Como fui notando que a Psicologia toda, ou melhor, de praticamente todos os continentes fora fundada por médicos neurologistas, optei por me recolher na minha insignificância de neófito dessa nova Ciência, nova para mim e nova no mundo humano (tem apenas uns 150 anos).

Enfim, basta dizer que os médicos seguem mandando em tudo e a Psicologia segue rendida à Neurologia, no “mental”. Infelizmente o Freud, como médico que era, também não superou o paradigma mental (apesar do predomínio da questão da sexualidade em sua teoria), tanto que para a Psicanálise pré-consciente, consciente e inconsciente são condições mentais, apenas.

Para complicar, a minha perplexidade foi agravada ao notar que, insistentemente, os Psicólogos de formação - ou seja, os não médicos - estão confundindo Psicologia com Sociologia, com Serviço Social. Ao menos essa confusão o Freud evitou (e os demais médicos também).

Até parece que a Neurologia cedeu lugar ao Serviço Social na Psicologia, e esta, enquanto Ciência, segue sem se encontrar. Ou seria melhor dizer que as pessoas continuam sem entender a Psicologia como uma Ciência autônoma?

Aliás, qual é o objeto de estudos/trabalhos da Psicologia enquanto Ciência? E qual é o objeto de estudos/trabalhos da Medicina? E da Sociologia, ou do Serviço Social enquanto Ciência?

A questão não é isolar a Psicologia, muito menos ainda, defender que o psiquismo se forma e se desenvolve longe do convívio social. Entretanto, o psiquismo é sempre subjetivo, ou seja, eu tenho a minha organização psíquica e você tem a tua, assim como também, cada um reagiu/reage de uma maneira, perante um contexto social específico, contexto que por sua vez, também o influencia.

Então, a organização psíquica de cada pessoa é única, inclusive, a de gêmeos univitelinos, gerados pelos mesmos pais, criados na mesma família e influenciados pelo mesmo meio social-cultural.

Parece que o objeto de estudos e de trabalho da Psicologia deveria ser esta organização - ou desorganização - subjetiva, sempre singular. Este psiquismo que uma vez “conhecido” pelo seu organizador, trará um imenso retorno pessoal e poderá resultar em significativas contribuições ao entorno social, mas insisto, um nobre retorno social é consequência de um psiquismo estruturado/organizado. Raramente o contrário dá certo.

A Psicologia não pode se ocupar com todos os problemas sociais/externos que afligem uma pessoa, mas, precisa se ocupar com todos os sintomas psíquicos/internos que afligem aquela pessoa.

Por exemplo: uma mulher grávida, já com três filhos pequenos, morando sozinha, numa casinha precária, dependente do “bolsa família” e de outras ajudas sociais, ainda pode ser uma fortaleza psíquica para os seus 4 filhos. Criá-los com tanto carinho e dedicação emocional que os filhos se sentirão mais seguros/desejados por essa mãe humilde e sozinha, do que um filho único de pais empresários, mas que pagam uma cuidadora para dar conta do herdeiro, este que não se sente “desejado” por nenhum dos três, o que pode resultar numa desorganização psíquica para vida toda.

Enfim, a questão psíquica não depende, direta e exclusivamente, da classe social a qual se pertence.

Ou ainda: vulnerabilidade material não implica, necessariamente, em vulnerabilidade psíquica. Afinal, nesse caso, o pessoal das classes abastadas não teria problema psicológico.

Acho que aqui, convém repetir: sabemos, muito bem, que é na convivência com os outros que o psiquismo se desenvolve. Sim, somos seres sociais. Assim como também está claro que as condições materiais, sociais, culturais e/ou religiosas também podem influenciar, enormemente, a organização psíquica subjetiva.

Aliás, falando em religião - e lembrando da questão da imparcialidade/neutralidade na Psicologia - no livro Psicologia e Alquimia, Carl Gustav Jung deixa claro que o inconsciente é pagão, ou seja, a religião não faz parte da estrutura inconsciente, portanto, é um construto do consciente e da cultura. E a Psicanálise, assim como a Psicologia Analítica, buscam sempre - ou deveriam buscar - a causa dos sintomas no inconsciente, lá onde, então, não existe religião.

E se o inconsciente também não tiver classe social, assim como não tem religião?

Continuando a questão da imparcialidade na Psicologia… e considerando a teoria de Freud sobre a bissexualidade inata no humano, não parece absurdo cogitar que, para ele, o inconsciente também difere em relação à “sexualidade”. Apesar dele focar, exageradamente, na sexualidade como causa da maioria dos problemas psíquicos das pessoas. Mas, ele também sempre focou na busca das causas dos sintomas no inconsciente, lá onde então, somos todos bissexuados.

Outra questão que implica em neutralidade na teoria freudiana é o “tempo”, ou melhor, para Psicanálise, o inconsciente é considerado atemporal, logo, não se submetendo à ordem linear do tempo consciente. Isso significa que os conteúdos inconscientes, como memórias, desejos e conflitos, não estão sujeitos à passagem do tempo - a cronologia - como na consciência. Em vez de uma sucessão de acontecimentos, o inconsciente comporta uma simultaneidade de memórias, onde o passado, presente e futuro não se distinguem, o que transparece muito bem nos sonhos.

Então, a Psicanálise busca sempre - ou deveria buscar - a causa dos sintomas no inconsciente do sujeito, lá onde não existe gênero definido, nem tempo cronológico. Será que por isso a Psicanálise é tão desafiante e difícil de ser “praticada”? Só sustentar uma escuta, já é um desafio gigantesco para egos histéricos, imaginemos então, como acessar o inconsciente na imparcialidade, como “pescar” (que requer muito silêncio, também) o inconsciente. Aliás - aproveitando a analogia com a pesca - é possível o ego do analista pescar o inconsciente do analisando? Ou só é possível o inconsciente do analista pescar o inconsciente do analisando? Infelizmente, o mais comum, é apenas o ego do analista e o ego do analisando se notarem.

E se o inconsciente também não tiver classe social, assim como não tem gênero nem tempo cronológico?

Pois então, caros psicólogos sociais, chegou o momento - consciente e presente - de perguntar se o inconsciente tem classe social.

Provocação feita, lembro do exemplo citado anteriormente, o da mulher grávida do quarto filho e em sérias situações de vulnerabilidade material, que, afinal, ainda pode ser uma mãe que sustenta o desejo dos filhos, apesar das desafiadoras circunstâncias externas. Assim como é bem comum ver que pais de classe social melhor, não sustentam nem o próprio desejo, muito menos conseguem sustentar o desejo do filho único, o que, curiosamente, é mais comum na classe média e alta.

Mas então, afinal, por que a Psicologia também está se rendendo ao assistencialismo social? Insistindo em buscar, excessivamente, fora dos sujeitos os motivos da vulnerabilidade psíquica.

Quem sabe, a grande questão que precisa ser esclarecida é distinguir entre vulnerabilidade social/material e vulnerabilidade psíquica. Caso contrário a Psicologia se resignará em escutas parciais, pois perdeu seu objeto científico.


Resultados e Discussão

A análise dos dados empíricos e teóricos evidencia uma clara disparidade entre os efeitos da psicologia de “escuta parcial” e das abordagens psicanalíticas profundas. Os estudos analisados demonstram que intervenções pautadas apenas na escuta “parcial/assistencial”, tendem a gerar alívios momentâneos, mas não promovem transformações outras. Em contrapartida, abordagens que ultrapassam a vulnerabilidade social e também consideram a vulnerabilidade psíquica, mostram resultados mais consistentes na reestruturação subjetiva, sobretudo em termos de simbolização, elaboração emocional e rompimento de ciclos repetitivos de sofrimento.

A interdisciplinaridade contribui significativamente para essa análise. Conceitos da Neuropsicologia contemporânea revelam que memórias traumáticas e padrões inconscientes afetam diretamente a organização psíquica e os modos de relação com o mundo, superando uma prática que, muitas vezes, reproduz o vitimismo e o conformismo, ou, a dualidade opressor e oprimido.

Claro que, perspectivas como a Psicologia Crítica (Almeida, 2018) e a Psicologia Cultural (Vygotsky, 1987) ampliam a noção de subjetividade ao considerar os contextos sociais e simbólicos que estruturam o psiquismo. Essas abordagens revelam que a escuta profunda não pode ser reduzida a um exercício técnico, mas deve ser um ato ético e profissional, capaz de confrontar as estruturas de opressão que atravessam o sujeito.

Estudos de casos reais, subjacentes neste trabalho, ilustram a centralidade da vulnerabilidade psíquica na prática da Psicologia. Um exemplo foi o caso acompanhado, de uma mãe em situação de pobreza material e vulnerabilidade social, mas ainda assim, revelou uma organização psíquica estruturada, desafiando o reducionismo que associa, automaticamente, vulnerabilidade social à fragilidade emocional.

Os resultados obtidos a partir da análise integrada entre a base teórica e os estudos empíricos selecionados evidenciam uma distinção significativa entre os efeitos da escuta parcial — frequentemente vinculada a práticas assistencialistas e interventivas de curta duração — e as abordagens psicológicas profundas e imparciais, centradas no trabalho com o psiquismo e a subjetividade (Tabela 1).

De acordo com Fonagy e Target (2007), intervenções que favorecem a mentalização, sobretudo em adolescentes em situação de risco, promovem avanços significativos na capacidade de simbolização, regulação afetiva e reorganização da experiência emocional. Esses resultados sustentam a tese de que o acesso às camadas “interiores” é essencial para a transformação subjetiva, especialmente em contextos de vulnerabilidade social, nos quais há traços de desorganização psíquica originada em vínculos precários.

Tabela 1 – Estudos empíricos selecionados sobre escuta profunda e transformação subjetiva


Autor(es)

Ano

Indicadores Principais

Fonagy & Target

2007

Capacidade de simbolização, mentalização, regulação emocional

Kernberg et al.

2008

Elaboração psíquica, integração do self, ruptura de padrões repetitivos

Holmes

2010

Construção de sentido, vínculo terapêutico, escuta ética e afetiva

Midgley et al.

2006

Linguagem simbólica infantil, elaboração de fantasias, reorganização psíquica

Kächele, Schachter & Luborsky

2009

Acesso ao inconsciente, transformação de padrões inconscientes, insight


Nesse mesmo sentido, Kernberg et al. (2008) demonstram que a Terapia Focada na Transferência (TFP), derivada da Psicanálise, propicia não apenas a contenção dos sintomas, mas a reestruturação psíquica mais profunda, ao trabalhar com os conteúdos internalizados de forma simbólica. Tais intervenções, ao contrário das abordagens sintomáticas ou focadas apenas no aqui e agora, mostraram-se mais eficazes em promover mudanças duradouras, especialmente no que diz respeito à repetição compulsiva de padrões disfuncionais de relação.

Holmes (2010), por sua vez, destaca a importância de uma escuta informada pela teoria do apego, mas que vá além das classificações comportamentais, permitindo a emergência de narrativas inconscientes por meio de uma postura clínica ética e afetivamente implicada. A escuta imparcial revela-se aqui como uma atitude ética que acolhe o sujeito em sua dor simbólica, e não apenas em sua carência material.

O estudo qualitativo de Midgley et al. (2006), ao investigar a percepção de crianças em psicoterapia, reforça a centralidade do simbolismo e da linguagem inconsciente na construção de sentido subjetivo. Crianças oriundas de contextos empobrecidos relataram que apenas quando suas fantasias e angústias puderam ser ouvidas — e não apenas corrigidas ou disciplinadas — é que se iniciou um processo efetivo de transformação emocional.

Diante da meta-análise de Kächele, Schachter e Luborsky (2009) apresentam evidências robustas de que abordagens que trabalham com os conteúdos inconscientes — como os sonhos, lapsos, memórias arcaicas e afetos dissociados — produzem efeitos mais profundos e duradouros na organização psíquica de pacientes em sofrimento. A análise longitudinal revelou que práticas centradas no consciente e no sintoma frequentemente falham em produzir mudanças estruturais no psiquismo.

Essas evidências empíricas convergem para o argumento de que a escuta parcial, embora possa produzir alívios imediatos dos sintomas, não alcança os níveis profundos da subjetividade, onde se estruturam as causas. Em contrapartida, as abordagens psicanalíticas profundas — freudianas, junguianas ou contemporâneas como a TFP — atuam diretamente sobre os núcleos inconscientes - internas - da experiência, possibilitando processos de simbolização, elaboração psíquica e ruptura de ciclos de repetição. Tais elementos são imprescindíveis para a promoção de saúde psíquica integral, especialmente em contextos marcados pela exclusão e pela precarização social e material.

Por fim, a discussão sobre a imparcialidade na escuta clínica ganha contornos mais complexos. A imparcialidade não deve ser entendida como indiferença, mas, como uma postura ética e profissional, que reconhece os atravessamentos do psiquismo. A verdadeira imparcialidade, exige do psicólogo uma escuta que vá além da superfície e dos aspectos externos, implicando numa “pesca mais profunda”, que potencializa o sujeito em seu psiquismo singular.


Considerações Finais

Este estudo reafirma a urgência de resgatar a centralidade do psiquismo subjetivo como núcleo estruturante da pessoa, contrapondo-se à Psicologia “assistencialista” e da escuta parcial, que permanece restrita ao plano consciente e às condições materiais visíveis e externas. A escuta profunda e imparcial, revela-se imprescindível para uma prática psicológica comprometida com o alívio imediato do sofrimento, mas sobretudo, com a ressignificação psíquica profunda do sujeito.

Além disso, torna-se necessário ampliar o debate ético na prática psicológica contemporânea, especialmente no que tange à imparcialidade, esta que não deve ser confundida com indiferença ou passividade, mas compreendida como uma postura profissional, que acolhe a singularidade do sujeito sem impor juízos morais, sociais, religiosos, de gênero etc. Essa postura demanda sensibilidade para os jogos de poder, para as resistências e para os silêncios que permeiam as vulnerabilidades psíquicas, aspectos muitas vezes eclipsados por abordagens pragmáticas, técnicas, assistencialistas e voltadas demasiadamente para fora do sujeito.

O presente estudo reafirma a urgência de potencializar o psiquismo subjetivo como núcleo estruturante do ser humano, superando a lógica reducionista da Psicologia de “escuta parcial”, frequentemente limitada ao plano consciente, às manifestações sintomáticas e às condições materiais externas. A análise integrada da literatura teórica e dos estudos empíricos evidencia que intervenções baseadas unicamente em “escuta assistencialista” tendem a gerar apenas alívios momentâneos, sem alcançar a reestruturação simbólica necessária para mudanças psíquicas profundas e duradouras.

Estudos como os de Fonagy & Target (2007), Kernberg et al. (2008), Holmes (2010), Midgley et al. (2006) e Kächele et al. (2009) evidenciam que a escuta clínica, quando orientada por uma postura ética e teoricamente consistente, pode gerar efeitos significativos sobre a constituição do self, o manejo dos afetos e a capacidade de ressignificação das vivências traumáticas. Essas descobertas reafirmam que a verdadeira transformação subjetiva requer uma escuta que vá além da racionalização, do diagnóstico técnico ou da intervenção superficial.

Diante disso, torna-se imperativo ampliar o debate ético na prática psicológica contemporânea, em especial no que se refere à noção de imparcialidade. Longe de significar neutralidade passiva ou indiferença, a imparcialidade aqui é concebida como uma postura de respeito, implicada, que reconhece os atravessamentos sociais sem se reduzir a eles. Tal postura acolhe a singularidade do sujeito sem impor juízos normativos — sejam eles morais, sociais, religiosos ou de gênero — e demanda sensibilidade para lidar com resistências, silêncios e os jogos de poder que vão aparecendo.

Nesse contexto, destaca-se a importância de fomentar pesquisas qualitativas, interdisciplinares e culturalmente sensíveis - voltadas também, para as vulnerabilidades psíquicas - especialmente em populações marginalizadas. Tais investigações são indispensáveis para superar uma psicologia meramente reativa e tecnocrática, abrindo caminho para práticas que, de fato, contribuam para a emancipação psíquica, a construção de sentido e o bem-estar integral do sujeito, objetivos que convergem com os princípios dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especialmente aqueles relacionados à saúde mental, justiça social e dignidade humana.

Diante disso, recomenda-se o fortalecimento da formação teórica dos profissionais de Psicologia, com ênfase em teorias que sustentem uma escuta imparcial, como as contribuições de Freud, Jung e autores contemporâneos que tratam da complexidade do psiquismo. É também fundamental, que as políticas públicas de saúde mental se alinhem a esse paradigma, reconhecendo que o sofrimento subjetivo não pode ser reduzido a diagnósticos rápidos ou respostas técnicas padronizadas, que muitas vezes, ainda tendem a responsabilizar ao externo, acabando por desmobilizar o psiquismo, a subjetividade.

Por fim, sugere-se o investimento em pesquisas qualitativas e interdisciplinares que possibilitem trabalhar, também, a vulnerabilidade psíquica. Tais investigações são essenciais para romper com uma Psicologia muito voltada para o assistencialismo social e retomar a Psicologia enquanto Ciência do psiquismo-subjetivo, podendo contribuir mais com a emancipação dos sujeitos e o bem-estar integral, em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.



Referências Bibliográficas

FONAGY, P. et al. Affect regulation, mentalization, and the development of the self. New York: Other Press, 2002.

SAFRAN, J. D.; MURAN, J. C. Negotiating the therapeutic alliance: a relational treatment guide. New York: Guilford Press, 2000.

FREUD, S. A interpretação dos sonhos. Trad. Durval Marcondes. Rio de Janeiro: Imago, 2001.

FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução. In: ______. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Obras completas, v. 14).

JUNG, C. G. Psicologia e alquimia. Trad. Dora Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 1964.

ALMEIDA, F. L. Psicoterapia psicodinâmica e o manejo clínico da angústia primária. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2018.








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